domingo, 4 de março de 2007

... e o espírito do capitalismo.

Não há nada tão saboroso como os tradicionais “amigos secretos” nos finais de ano. Todas as pessoas que participam de tais festividades, sabem que terão que abraçar dois colegas onde um é anônimo. Está claro o sentido de anônimo, não? Enfim, trata-se de uma tradição quase natalina e comunitária, onde o mais importante é a expectativa do que a premiação em si.

Como não nego convite para entretenimentos dessa envergadura, aceitei participar de um amigo secreto em uma das escolas onde tento trabalhar. Pessoas agradáveis e discursos memoráveis são indícios de algo interessante a se observar, eis o brilhante momento da revelação! No esperado sorteio, acabei por tirar uma professora pela qual tenho demasiado apreço e consideração; contudo, a questão passou a ser qual presente comprar para a colega, resolvida em poucos instantes depois de constatada sua preferência religiosa: o protestantismo.

Que presente comprar? Uma Bíblia Sagrada? Uma camiseta do smilingüido? Para esclarecer melhor as coisas, resolvi ir até uma loja de artigos religiosos, onde poderia ver uma variedade maior de possíveis agrados. Ledo engano. Havia me esquecido de uma das maiores premissas filosóficas: quanto maior a quantidade, mais rigoroso deve ser o critério de especificação; simplificando, me atrapalhei extraordinariamente para conseguir fazer uma boa escolha. Ao recordar o axioma, comecei a aguardar que o critério terminasse de atender outro cliente para que viesse satisfazer minhas dúvidas. Esperei, esperei e esperei. Esperei, saiu a pessoa que estava na minha frente, esperei, esperei...

Um pouco incomodado, percebi que ele não me perguntava: “Pois não?” e isso me causava certa estranheza. Andava em círculos, um tanto inquieto, e nada de me atender. Chegou outra pessoa, ouvi a sintomática pergunta dos vendedores... E não era pra mim. Fiz o exercício de se interpretar dentro de um contexto, eu, cabelos longos, camiseta, bermuda e chinelo dedo. Lamentável! Não há nenhuma chance de querer comprar algo religioso. Eita raciocininho sem jeito!

Comecei a pensar sobre a ética protestante. Ainda bem que a maioria esmagadora, quase unânime, dos protestantes que conheço são pessoas do mais ilibado caráter e consideração pela figura humana. Mas nenhuma delas são comerciantes. Não digo que todos os comerciantes que seguem essa orientação religiosa teriam o mesmo comportamento do colega referido, mas, sem sombra de dúvida, o capitalismo não faz dela uma condição sine qua non.

Comprei o presente em outra loja.

Um comentário:

Cassio disse...

hauahauhau...Ulisses, encaro este relato como um conto. Delicioso!
Abraço.