
Querer viver para sempre é um sentimento juvenil. Na medida em que envelhecemos, para quem não se acostuma com a idéia de que um dia vai contar seu último segundo no planeta, pelo menos vai aceitando de que será a personagem central de um velório. Tudo passa e uma hora, fatalmente, nós também passaremos.
Não gosto de refletir sobre um tema tão pesado quanto a morte, entretanto, uma força muito maior que meu desejo faz com que dedique minhas desastradas e tristes palavras para tamanha abordagem. Afinal, o último domingo passou o grande Moacyr Scliar.
Agigantou nossas letras pela sua própria humanidade. Fez-se porta-voz da cultura judaica em nossa pátria. Provou pra todo mundo que não é preciso se fazer de coitado, depois da Segunda Guerra Mundial, para falar da história do povo judeu e nem ficar lamentando o Holocausto, pois está claro que seja qual for o ataque à integridade humana ela é digna de repulsa e condenação.
Lutou sim contra as mazelas sociais, seguindo o exemplo incontestável de Che Guevara, professando a bela função médica especializando-se em saúde pública. Militou na literatura contra a opressão de um besta regime militar e, através de sua fina habilidade com a língua portuguesa, traduzindo em suas páginas as diversas possibilidades dos anseios humanos.
Não está mais na moda querer salvar o mundo; pensar numa política que seja humana e igualitária; no bem da sociedade como um todo; querer acabar com a fome, a miséria e a corrupção e ver no outro a mesma dignidade que tanto vemos em nós mesmos. O que fazemos em nossos dias é defender um escasso salário em detrimento da nossa vergonha moral.
Um lugar como esse não merece um imortal como Moacyr Scliar, pelo contrário, precisa dele.
Sim! Ele é imortal! Não porque uma academia reconheceu, mas pela sua perseverança. Por ser o único soldado do exército de um homem só e jamais desistir. Sua resistência sobrevive, mesmo antes de seu nome virar troféu e prêmio de concursos literários, ela já figurava nas práticas que motivam os grandes realizadores.
Estou planejando, ao lado do amigo, filósofo e publicitário Sanabria, uma viagem pela América Latina com o objetivo de passar nas cidades onde vivem e viveram os grandes escritores de nossa cultura. No percurso, o projeto era passar em Porto Alegre para conversar com Moacyr...
Por vezes agradeci a oportunidade de não ter vivenciado a dor do dia da passagem de John Lennon. Hoje as lágrimas são para Moacyr Scliar.
Descanse em paz.





